Descontentamento com a política eleva votos brancos, nulos e abstenções em 2016

As eleições municipais deste ano foram marcadas por um aumento do número de votos brancos, nulos e das abstenções. Dos 32,9 milhões de brasileiros aptos a votar no segundo turno em 57 cidades, 10,7 milhões (32,5%) não escolheram nenhum candidato no último domingo (30.10). Na segunda etapa de votação em 2012, quando houve disputa em 50 municípios, a chamada taxa de alienação havia sido de 26,5%.

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Em Curitiba, a disputa entre Rafael Greca (PMN) e Ney Leprevost (PSD) registrou o menor índice de votos válidos na capital desde 1985. A cada três possíveis votos válidos, um foi branco, nulo ou abstenção. No primeiro turno realizado em 2 de outubro, o “não voto” venceria a disputa em 10 capitais.

Para especialistas ouvidos pelo Vote Bem, esses números são resultado de um quadro de descontentamento da população com a política e também da radicalização da disputa em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. “O retrato da votação deste ano foi o de um eleitor que não se sentiu representado e não quis participar”, afirma o cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Os escândalos políticos recentes, que culminaram com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, geraram um clima de “criminalização da política” que afastou o eleitor das grandes cidades das urnas, aponta Cervi. “O mesmo processo ocorreu após o impeachment do presidente Fernando Collor. As taxas de abstenção e voto branco e nulo foram mais altas nas eleições de 1992 e 1994”, argumenta o cientista político.

Após a votação de domingo, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, observou que é preciso relativizar os números registrados neste ano, já que nas cidades onde houve recadastramento dos eleitores para votação biométrica, as taxas de abstenção foram menores. Por conta da atualização dos cadastros, eleitores que morreram ou se mudaram, deixam de ser contabilizados.

No entanto, ele admitiu que o aumento das ausências e dos votos brancos e nulos reflete “a insatisfação da população contra a classe política” e “enfraquece e debilita as pessoas que recebem os mandatos”.

Disputa radicalizada

14884607_1251283224894925_6344041843216081362_oOutro fator que contribuiu para o aumento do “não voto” foi a radicalização das disputas em grandes capitais. Segundo o sociólogo Antonio Lavareda, o Rio de Janeiro foi o maior exemplo. Na capital fluminense, onde houve disputa entre um candidato da direita religiosa – o senador Marcelo Crivella (PRB)— e um representante da extrema esquerda – o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) –, a taxa de alienação foi de 41,53%. “O eleitor carioca de centro não se viu identificado com nenhum dos candidatos e decidiu que, dessa vez, não era obrigado a escolher o menos pior”, disse Lavareda.

Processos semelhantes, acrescenta o especialista, ocorreram em cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte e Curitiba. “Nesses casos, quem ficou órfão foi o eleitor de centro-esquerda, que não se sentiu obrigado a escolher entre dois candidatos conservadores”, adiciona o sociólogo.

Processo natural

Lavareda argumenta, porém, que o aumento da não participação do eleitor nas votações não é motivo de preocupação, pois se trata de um processo natural das democracias. “Nos Estados Unidos, menos de 50% da população participa da votação para a eleição do presidente e nem por isso se questiona o resultado dos pleitos ou a maturidade da democracia”, afirma.

Professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Mario Sérgio Lepre também acredita que não há motivo para pânico. “Esse resultado reflete as características do pleito deste ano e não há nenhum elemento que indique que esse padrão vá se repetir nas próximas eleições”, afirma. “Muitos eleitores ficaram sem opção. E não escolher também é uma forma legítima de participar”, acrescenta.

Lepre defende que as atenções da sociedade devem se voltar questões mais urgentes para o sistema político, como as regras que favorecem a multiplicidade de partidos –atualmente há 35 legendas registradas na Justiça Eleitoral. “Não há democracia que consiga conviver com essa fragmentação partidária. Essa deve ser a prioridade número um da reforma política, a começar pelo fim das coligações proporcionais, que favorecem as legendas de aluguel”, finaliza.

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